Para marcar os 40 anos do golpe militar de 1964 de maneira reflexiva e crítica, a TV Câmara apresenta o documentário “Contos da Resistência”, em quatro episódios. Cada episódio vai enfocar um aspecto da resistência à ditadura e como esses movimentos contribuíram para a construção da democracia que temos hoje no Brasil. As articulações em todos os segmentos da sociedade para se contrapor ao governo autoritário; as organizações sociais de estudantes, trabalhadores e religiosos para lutar pela democracia e esclarecer a população; a resistência política no Congresso; a crítica inteligente e criativa das artes e da imprensa; a repressão e a tortura a representantes desses grupos; e o movimento social pelas eleições diretas em 1984: todos os temas estarão nos programas, abordados a partir da perspectiva de quem viveu esses tipos de resistência. O objetivo da série de documentários é esclarecer fatos políticos dos 20 anos de ditadura militar, explicar como se davam as ações de poder e dominação do governo central, e como o Congresso foi, ao mesmo tempo, núcleo de resistência e caixa de ressonância dos desejos dos militares daquela época. Apesar de fazer parte da história recente do Brasil, muitos fatos relacionados ao golpe e à ditadura militar são mitificados ou pouco esclarecidos. Uma das razões é que a imprensa foi extremamente controlada no período. Os movimentos de resistência não tiveram o devido tratamento da mídia na época ou foram mitificados posteriormente, sem que as pessoas tivessem conhecimentos dos reais detalhes envolvidos. Com base em vasta pesquisa histórica, de material de arquivos e nos depoimentos registrados são mostradas as decisões de exceção tomadas pelos generais e principalmente, as forças que contribuíam para a resistência ao sistema. Os programas apresentam o contexto, explicitando ideologias, intenções e interesses envolvidos, tais como o envolvimento dos freis dominicanos na defesa dos estudantes clandestinos, o envolvimento da igreja católica em diversos momentos e a ação das organizações estudantis. As captações foram feitas em seis cidades brasileiras: Brasília, Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. O objetivo é dar uma visão o mais nacional e abrangente possível a partir das histórias (os contos) dos personagens envolvidos nos fatos levantados. A TV Câmara acredita contribuir para a informação da geração que não viveu a ditadura e refletir sobre a arbitrariedade de um regime autoritário. Assim, cumpre seu papel de emissora pública, ajudando a formar opiniões a favor de uma sociedade pluralista e democrática. Alguns dos entrevistados: CELSO AMORIM SÉRGIO CABRAL WALDIR PIRES VLADIMIR CARVALHO DANTE OLIVEIRA JAIR MENEGUELLI FREI BETO ALMINO AFONSO FERNANDO GASPARIAN FREI CARLOS JOSAPHA ALBERTO DINES AIRTON SOARES PAULO DE TARSO VENCESLAU DOM PAULO EVARISTO ARNS HÉLIO BICUDO FRANCISCO WHITAKER TEREZINHA ZERBINE RODOLFO KONDER MARIA APARECIDA AQUINO ZÉ CELSO MARTINÊS MARCO ANTÔNIO COELHO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO MÁRCIO MOREIRA ALVES VERA GERTHEL FRANCISCO MILANI PAULO CEZAR SARRACENI VITORIA GRABOIS JEAN MARC VON DER VEID CARLOS EDUARDO NOVAES ROBERTO FARIAS MODESTO DA SILVEIRA FERREIRA GULLAR JOSE LUIS GUEDES CARLOS HEITOR CONY CECÍLIA COIMBRA ÍTALA NANDI ZIRALDO FERNANDO LYRA DOM MARCELO CARVALHEIRA A série Contos de Resistência recebeu em 2004 o prêmio Vladimir Herzog, a mais importante premiação jornalística da área de direitos humanos do país. Reprodução autorizada mediante citação da TV Câmara
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Vídeo: Contos da Resistência
sexta-feira, 16 de março de 2007
Porto Alegre - Um texto publicado na revista Veja desta semana, sobre a morte do bispo emérito de Santa Maria, Dom Ivo Lorscheiter, tem gerado revolta no meio religioso brasileiro. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota oficial, repudiando o texto da revista Veja. Na nota, a CNBB exige uma reparação da revista e questiona a quem interessa a “segunda morte” de Dom Ivo Lorscheiter.
Na seção “Datas”, a publicação semanal da editora Abril diz que Dom Ivo apoiou a criação de bandos armados, que teriam dado origem ao Movimento Sem Terra, e chama a Teologia da Libertação de uma “excrescência saída da cabeça de padres” latino-americanos.
A Prefeitura Municipal de Santa Maria e o projeto Cooesperança, que era apoiado pela diocese de Dom Ivo, também divulgaram notas na imprensa criticando a atitude de Veja. A Irmã Lourdes Dill, que coordena o Projeto Esperança e trabalhou durante 20 anos com Dom Ivo, explica os motivos da revolta contra a revista. “Já que a Veja, covardemente, fez uma denúncia contra Dom Ivo, coisas que ele não fez. Colocaram que Dom Ivo politizou o evangelho. Para mim, politizar o evangelho é uma função nossa, como cristãos. Quem não politiza o evangelho, não pode ser chamado de cristão. Dom Ivo teve essa postura de unir fé e vida, e trazer para o dia-a-dia da vida o evangelho politizado”, afirma.
Dom Ivo Lorscheiter foi Secretário Geral da CNBB entre 1972 e 1978. Depois, assumiu a presidência da entidade, onde ficou até 1986. Neste período, se notabilizou por defender publicamente os perseguidos pela ditadura militar. Também apoiou o Movimento Sem Terra (MST), na época do seu surgimento, na região Norte do Rio Grande do Sul. Uma das lideranças do MST que viveu esta época, Mario Lill opina sobre as afirmações da revista Veja. “Talvez essas fofocas que a Veja anda lançando estejam ligadas a isso. Porque a Veja sempre foi uma defensora do latifúndio, e todo aquele que questionou o latifúndio foi caçado”, diz.
O bispo de Santa Cruz do Sul, Dom Sinésio Bohn, afirma que, durante toda a sua trajetória, Dom Ivo foi perseguido pela imprensa conservadora, entre a qual figura a publicação da editora Abril. “Ela é uma delas, que sempre foi caluniosa, falsa, injuriosa, injusta e difamatória. Estão coerentes com sua história. Este grupo sempre caluniou Dom Ivo e a Igreja. São, realmente, um grupo, do ponto de vista da verdade, absolutamente sem credibilidade”, afirma. Dom Sinésio afirma que nem a morte de Dom Ivo foi respeitada pela revista. “Dos mortos não se fala mal. Nem isso são capazes de fazer. Porque ele sempre foi firme, impertubável. Sempre defendeu o que parecia justo, verdadeiro. Ele também se pegou com as esquerdas, dentro e fora da Igreja. Seguiu sua consciência e sempre defendeu os direitos humanos”.
Dom Ivo Lorscheiter morreu na tarde do dia 5 de março, no Hospital da Caridade de Santa Maria. Ele tinha 79 anos.